domingo, 6 de fevereiro de 2011

Pensamentos selvagens

Simplesmente me marcam e vão embora. Todos eles: os amantes desumanos incorrigíveis. Assim mesmo, sem ao menos um “tchau”, ou uma lembrança de consideração. As marcas em mim infligidas de nada servem se não para mostrar para os outros que alguém, algum dia, já amou debaixo das minhas folhas hoje não tão verdes. Bem, como parte integrante dessa linda esfera azul que flutua no mar da imensidão sideral, devo confessar que em minha seiva tudo o que corre é amor. Foi isso o que a mãe natureza me ensinou.  Mas até mesmo o amor pode ser um veneno letal. Quando chega um certo ponto em nossas longas existências, queremos simplesmente deixar de amar. Aquele sentimento de aconchego que oferecemos aos viajantes vindos de lugares distantes simplesmente se esvanece. A hospitalidade se vai. E assim, instaura-se uma linha tênue entre o amor e o ódio. Não que queira odiar as pessoas que pelo bosque passam. Muito pelo contrário. Mas gostaria de só um vez passar desapercebida. Gostaria que ao menos uma unica fez, pensassem bem antes de sacar a lâmina intolerante e projetar em mim, em forma de simbolo, o amor que sentem. Afinal, eu já trabalho tanto para elas. Mesmo assim, as exigências não param. E para os humanos nada nunca está bom. Este é  um pouco da minha vida de árvore: servil e pacifista. Agora  estou eu aqui só, cuja única compahia é o vento morno das tardes outonais. Gosto mais assim. E o amor se vê crescendo e crescendo na minha casca: a crosta que me separa da realidade fugaz dos amores passageiros. Mas, no fim das contas, o amor marcado em mim ainda cresce, independente das desavenças e das separações daqueles que já esqueceram a marca deixada em meu peito de árvore. Acho que estou re-aprendendo a amar. O meu novo amor é o meu próprio amor.