Foi buscar o que no fundo não tinha. Isso não foi bom. Percebeu que, enfim, tinha feito certo ao negar a própria personalidade àqueles que passar por sua vida. Pobres humanos...tanta energia desperdiçada com coisas fúteis e alentos que duram pouco mais que segundos. Olhando para o final do abismo, a visão não foi nada mais do que um súbito grito de horror aos ouvidos, do tipo que deixa sua mente paralisada e seu corpo parece ter recebido uma violenta onda de torpor: haviam corpos partidos e mentes fundidas, banhadas num liquido viscoso verde-lodo e mal cheiroso. Das entranhas se exteriorizava uma fumaça densa e branca como marfim. À qualquer outro ser, aquilo bastaria para abandonar qualquer ensinamento derivado da sanidade mental. Porém, a ele nada fez, se não um leve formigamento no peito. Só um pouco; só a título de aviso. Um aviso de que nada que viesse a tona naquela situação superaria a dor causada por ser quem realmente era. Por saber e esconder de si mesmo o que ele realmente era. E depois de tudo, eu quem fico com os créditos pelos males do mundo! Mas o verdade não fica escondida por muito tempo, pois esse é um crédito às mentiras. A título de curiosidade: as pessoas que ali jaziam, todas elas sabiam dos riscos que correriam; foram bravas. Penso que morreram felizes. Penso também que até seria melhor para ele morrer, que persistir naquela atmosfera mórbida e gélida das almas à venda. Isso pois nem havia experimentado as coisas realmente boas e, sendo assim, a dor e o vazio que sentia não eram assim tão aniquiladores. Os humanos são mesmo engraçados: complicam as coisas; mudam de idéia rapidamente; confundem sentimentos; manipulam por propósitos egoístas e assim por diante. Parece que nenhum cavaleiro do apocalipse vai pará-los. Não! Não será necessário: todos eles já vagam no mar de almas do limbo. Tornei-me inútil, pois minha foice não mais balançará como o pêndulo preguisoço que marca as horas divinas. No mais: descansarei.