quinta-feira, 7 de abril de 2011

Dislexia

Um braço e depois o outro. Estica a perna e salta. Há realmente um espaço enorme entre mim e o mundo.O que há, na verdade, é um abismo de mentiras entre eu e o mundo. Mentiras que  jazem no vácuo da individualidade de ambas as partes. Felizmente, sinto somente vontade de dançar. E sair pelo mundo afora sendo feliz comigo mesmo. Deitar na grama; molhar os pés no riacho; cheirar meu livro novo; admirar a capa dos antigos; pegar na mão e enrubescer. Posso até sentir, às vezes, que não sinto nada. Mas se isso chegou a acontecer é porque já senti demais; do bom ou do ruim. Posso até dizer isto sem aquilo, mas se isso chega a acontecer, é porque palavras já não funcionam mais como passe para o circo de horrores que cada um leva dentro de si. Meu ou seu, não importa. O que não vemos está diante dos nossos narizes: somos iguais e diferentes e, entender e aceitar isso é o primeiro passo gratuito para a felicidade. Porém, minha existência desagua em todas as outras, e isso pode ser o ponto final da minha odisséia particular.

O mar me namora

Enquanto o quebrar das ondas na bahia traz o cheiro da maresia e a umidade densa da água, o movimento retrógrado leva das minhas costas o fardo de ser humano, desmanchando-se como o sal que ali jazia corrosivo. Ali somos só eu e ele, e eu esqueço tudo o que me fere. Quando está longe ainda assim consigo escutar seus sussurros e se passamos muito tempo sem nos encontrar, ele manda suas mensagens que ululam através dos ventos fortes do temporal. Devo confessar que a ele não sou fiel, e a recíproca não é verdadeira. Na necessidade vejo dispor-se diante mim seu lençol de renda em relevo, ainda que nos tempos de glória não pare para pensar na dívida infindável que tenho com ele. O mar me namora; onda bate e volta, leva meus amores antigos e traz minha vontade de ir embora; mar adentro.

Pretensão

Bailarina dança solta folha verde descontinuada dos cachos que o vento balança e o vestido que urge na franja do vento. Daquela pele morena salta arrepio que novamente ao vento espraia o doce perfume de pitangas ao meio dia. A musica continua e o ardor de pés cansados não pode mais ser percebido. Vi a lua naquele instante enamorar-se pelo sol e tudo que restou fora a sombra do teu olhar e tua mão na minha mão. Giro entorno do corpo inclinado como coqueiro no litoral e a saia roda gira e torna ao mesmo lugar de outrora. Um toque suave calor da manhã outonal e o encostar do meu rosto no seu me faz querer ser uno em tua densa natureza selvagem. Vi  ali o verbo se fazer carne e carne se dissipar no horizonte das ilusões e chuva cai mão se vai não atrai, fulgaz.