quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Sonhalidade

Finalmente acordei daquele terror de vida. Com a boca seca e sensação de afogamento interno,  sentei na cama e me pus a pensar realidades deturpadas e preconizadas pela conjunção "se". A dor batera, cessara e agora...voltara. O lamento não faz em minha boca boa moradia. O animal que persegui ferozmente rejeitou as tentativas de domesticação e agora é meu algoz. O jogo virara. Volta e meia me prendo nas teias que eu mesmo teci; caio nas arapucas que eu mesmo armei; sucumbo às ameaças da minha própria sanidade. Não posso esquecer da contradição, pois nas metáforas me sinto afinado, apesar de pouco poder de abstração  de mim para comigo. Tudo isso foi me mostrado em sonho. O consciente tapeia, mas o inconsciente é severo. É ele meu verdadeiro algoz. Me prende a um lugar ao qual não quero estar mais. Nos sonhos tudo é lindo. Nos meus sonhos a realidade é cortante... dilacerante. Devaneios feitos, vem a raiva de sentir e ser o que realmente são inerentes à minha pessoa. E com um balde de água gelada o sonho me desperta. Não para a vida que eu sempre sonhei, mas para a realidade que eu nunca tive e sempre sinto des(res)peito.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

O cheiro do medo

Sou um palhaço com a maquiagem ao avesso. Um bobo da corte de roupa monocromática. Um filme mudo em slow-motion. Tão tedioso e desinteressado quanto o balanço da maré. Sinto tudo e, ao mesmo tempo, nada. Vazio. Nos meus olhos nadam os grandes mamíferos selvagens. No meu coração sopra o vento congelante vindo do sul. Nos punhos as vinhas que prendem a minha existência espiritual à esta terra devastada. Aos ouvidos, o temor da morte quase certa. De minha boca, lâminas púrpuras, tranformando palavras em objetos de tortura. E da jaula forjada com barras de marfim escapam sussurros de dores da alma. Porém, ninguém escuta. É baixo demais. Uma folha seca ao sabor do vento tem mais sorte que eu. Posso mudar...transformar... Posso sumir? Minha vida não merece ser abreviada. Não mereço tanto. Na verdade, não mereço nada.

Pensamentos selvagens

Simplesmente me marcam e vão embora. Todos eles: os amantes desumanos incorrigíveis. Assim mesmo, sem ao menos um “tchau”, ou uma lembrança de consideração. As marcas em mim infligidas de nada servem se não para mostrar para os outros que alguém, algum dia, já amou debaixo das minhas folhas hoje não tão verdes. Bem, como parte integrante dessa linda esfera azul que flutua no mar da imensidão sideral, devo confessar que em minha seiva tudo o que corre é amor. Foi isso o que a mãe natureza me ensinou.  Mas até mesmo o amor pode ser um veneno letal. Quando chega um certo ponto em nossas longas existências, queremos simplesmente deixar de amar. Aquele sentimento de aconchego que oferecemos aos viajantes vindos de lugares distantes simplesmente se esvanece. A hospitalidade se vai. E assim, instaura-se uma linha tênue entre o amor e o ódio. Não que queira odiar as pessoas que pelo bosque passam. Muito pelo contrário. Mas gostaria de só um vez passar desapercebida. Gostaria que ao menos uma unica fez, pensassem bem antes de sacar a lâmina intolerante e projetar em mim, em forma de simbolo, o amor que sentem. Afinal, eu já trabalho tanto para elas. Mesmo assim, as exigências não param. E para os humanos nada nunca está bom. Este é  um pouco da minha vida de árvore: servil e pacifista. Agora  estou eu aqui só, cuja única compahia é o vento morno das tardes outonais. Gosto mais assim. E o amor se vê crescendo e crescendo na minha casca: a crosta que me separa da realidade fugaz dos amores passageiros. Mas, no fim das contas, o amor marcado em mim ainda cresce, independente das desavenças e das separações daqueles que já esqueceram a marca deixada em meu peito de árvore. Acho que estou re-aprendendo a amar. O meu novo amor é o meu próprio amor.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Marasmo nas trevas

Foi buscar o que no fundo não tinha. Isso não foi bom. Percebeu que, enfim, tinha feito certo ao negar a própria personalidade àqueles que passar por sua vida. Pobres humanos...tanta energia desperdiçada com coisas fúteis e alentos que duram pouco mais que segundos. Olhando para o final do abismo, a visão não foi nada mais do que um súbito grito de horror aos ouvidos, do tipo que deixa sua mente paralisada e seu corpo parece ter recebido uma violenta onda de torpor: haviam corpos partidos e mentes fundidas, banhadas num liquido viscoso verde-lodo e mal cheiroso. Das entranhas se exteriorizava uma fumaça densa e branca como marfim. À qualquer outro ser, aquilo bastaria para abandonar qualquer ensinamento derivado da sanidade mental. Porém, a ele nada fez, se não um leve formigamento no peito. Só um pouco; só a título de aviso. Um aviso de que nada que viesse a tona naquela situação superaria a dor causada por ser quem realmente era. Por saber e esconder de si mesmo o que ele realmente era. E depois de tudo, eu quem fico com os créditos pelos males do mundo! Mas o verdade não fica escondida por muito tempo, pois esse é um crédito às mentiras. A título de curiosidade: as pessoas que ali jaziam, todas elas sabiam dos riscos que correriam; foram bravas. Penso que morreram felizes. Penso também que até seria melhor para ele morrer, que persistir naquela atmosfera mórbida e gélida das almas à venda. Isso pois nem havia experimentado as coisas realmente boas e, sendo assim, a dor e o vazio que sentia não eram assim tão aniquiladores. Os humanos são mesmo engraçados: complicam as coisas; mudam de idéia rapidamente; confundem sentimentos; manipulam por propósitos egoístas e assim por diante. Parece que nenhum cavaleiro do apocalipse vai pará-los. Não! Não será necessário: todos eles já vagam no mar de  almas do limbo. Tornei-me inútil, pois minha foice não mais balançará como o pêndulo preguisoço que marca as horas divinas. No mais: descansarei.