domingo, 6 de fevereiro de 2011

O cheiro do medo

Sou um palhaço com a maquiagem ao avesso. Um bobo da corte de roupa monocromática. Um filme mudo em slow-motion. Tão tedioso e desinteressado quanto o balanço da maré. Sinto tudo e, ao mesmo tempo, nada. Vazio. Nos meus olhos nadam os grandes mamíferos selvagens. No meu coração sopra o vento congelante vindo do sul. Nos punhos as vinhas que prendem a minha existência espiritual à esta terra devastada. Aos ouvidos, o temor da morte quase certa. De minha boca, lâminas púrpuras, tranformando palavras em objetos de tortura. E da jaula forjada com barras de marfim escapam sussurros de dores da alma. Porém, ninguém escuta. É baixo demais. Uma folha seca ao sabor do vento tem mais sorte que eu. Posso mudar...transformar... Posso sumir? Minha vida não merece ser abreviada. Não mereço tanto. Na verdade, não mereço nada.