quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Operário

Manejando tijolo por tijolo eu pretendo modificar o meu futuro. O projeto já foi feito pelas mãos cuidadosas de arquitetos de outrora, mas o projeto se fez carne: o projeto sou eu. Sou o senhor do meu próprio destino. As verdades que os companheiros tentam desesperadamente me vender não irão mudar quem eu realmente serei. O passado é terreno que sustenta meu edifício, ainda que não tenha importância aparente. É o que eu vivi lá que configura a face oculta da minha personalidade. Sem ele meu prédio cai e me torno um não-Eu; falta-me a metade. Não importa se tu, que antes foste o tijolo mais brilhante que arranquei daquela preciosa estrada, não está mais comigo, pois outro ocupará o seu lugar, ainda que eu tenha que completar com mais massa, ou com os pedacinhos de concreto quebrado que venho juntando das doações incrédulas dos meus ajudantes. A face oculta é traiçoeira, pois mente para o seu próprio empregador: eu não sou o senhor do meu futuro, afinal. Na construção da vida, o meu prédio vai ficando torto e vai rachando. Entra tijolo, sai tijolo, mas as minhas mãos suadas não se cansam de tentar encaixar nesse projeto louco, a peça que tu fostes. Talvez, mas somente talvez, ele esteja escondido lá no fundo, ofuscado por outra arte ou fato oferecido com mais afinco. Mas isso só quem sabe sou eu. E a personalidade escondida no fundo dos meus olhos, agora deturpada na possibilidade de ainda depender de outrém para seguir o projeto, me fala que amanhã teu tijolo será a base da minha felicidade: o passado.

Ewerton Oliver