sábado, 11 de dezembro de 2010

Dentro de (mim)

Ao redor, sente-se que o que havia perturbado o descanso estava pairando no ar. Ah, é o doce cheiro de carmim; cheiro de coisa vinda dos baús dos queridos anciões. Vem de algo que ainda não se consegue perceber, mas que está mais perto do que se poderá imaginar. Em mente, reverberaram lembranças vencidas pela força de atos não-verbalizados. Precisou desvencilhar-se daquela tempestade de emoções, então decidiu dar uma volta pelo campo e preencher os pulmões com o doce cheiro das uvas frescas, como se não soubesse que elas não estariam mais à disposição do toque. Afincada no chão cuidadosamente fertilizado estava uma placa que advertia sobre o tempo passado das uvas. Sentiu-se uma vertigem por causa da força, velocidade e densidade dos pensamentos que  lhe afligiram ferozmente naquele momento. Não paramos para pensar que quando as uvas parassem de brotar, todos simplesmente sentiriam falta delas; todos poderiam enfim ver que aquele o doce paladar de outrora jazia unicamente na lembrança. Seria o medo desse vazio repentino, que vinham nos estremecer por presságios, o sentimento causa-dor de tamanha preocupação com o fim? Independente de tudo, sente-se tristeza por não querer deixar aquilo ir embora, pelo menos pelo curto tempo que irá se passar sem elas, até a nova temporada. Essa sensação era, em parte, causada pela insaciável necessidade que se teve, ou que se pensou ter, de sentir o doce sabor daquelas nossas preciosidades momentâneas. Voltando dos devaneios mais obscuros que alma humana enlameada poderia tramar, percebe-se que em muito o cheiro daqueles doces frutos confundem-se com o cheiro que impregnou os quartos, os lençóis e penetrou as dependências da infortunada e, até então, inviolada sanidade. Mas antes que se possa dar conta dos fatos acontecidos, sente-se que o tempo da busca e da abstinência é, agora, passado. Abrindo os olhos, percebe-se que o fato já não causará dor alguma; já não desperdiçará o tempo que lava os pés com o fogo gotejante da irracionalidade. E então, observa-se no horizonte do nublado dia que agora era tempo de amoras. As recém-chegadas amoras trazidas pelos ventos que trabalham à favor do destino. São os nossos mais novos amores.


Ewerton oliver.